Entre quatro paredes

A menina acompanha atenta a sua aula semanal de pintura. Na tela em branco, apoiada num cavalete de madeira, ela cria com pinceladas suaves cenas de natureza morta em tons claros de rosa, azul e amarelo. Uma pintura bonita, leve, correta. Ela mostra com orgulho o desenho feito com boa técnica para os colegas do curso e se despede.

De volta em casa, no quarto, de frente pra cama de casal vazia, a mulher tenta digerir a raiva depois de uma discussão conjugal. Mas não consegue. Dói muito. O sangue ferve e ela atira na parede com uma força visceral latas de tinta vermelha, branca e preta, que escorrem formando uma obra-prima viva. Fresca. Ela senta num tapete no chão, abraça os joelhos e se encolhe na sua dor. A porta do quarto está trancada. Do lado de fora, uma fila imensa de mulheres aguarda ansiosamente pela abertura da exposição.

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