Photo Olga DeLawrence/unsplash

Prisão da escassez

A mulher se prepara para sair da prisão depois de décadas. Sai da cela onde dormia e é levada por uma funcionária pelo corredor. Na recepção, lhe devolvem algumas roupas, pertences e um saco plástico cheio de dinheiro.

Ela deixa o presídio mas fica parada por um tempo na frente do portão. De chinelos e calça de moletom, segurando o saco de dinheiro bem firme nas mãos. Faz um dia lindo, ensolarado, mas a mulher está assustada. Foram muitos anos presa, praticamente a vida inteira. Não sabe o que fazer com tanta liberdade. E nem com tanto dinheiro.

Ela anda um pouco pela rua, fica com medo e decide voltar. Bate na porta do presídio pedindo ajuda. Quer entrar, mas já não é mais possível. A mulher, então, volta a andar pela calçada com a roupa que mais parece um uniforme de cadeia e com o saco de dinheiro fechado nas mãos. Nem sabe ao certo a quantia que carrega. Não tem familiaridade nem com o dinheiro nem com a liberdade.

Já em casa, sozinha, antes mesmo de abrir o saco, ela começa a pensar que diabos vai fazer com o dinheiro. A primeira ideia é ir ao banco, conversar com o gerente e pedir sugestões de investimentos. Outra hora se vê visitando um imóvel pra sair do aluguel. Depois cogita comprar um carro. Sentada no chão do quarto, ela abraça os joelhos encolhida e segura o saco de dinheiro. Sempre fechado. Distante do corpo. As possibilidades são muitas, mas a sensação de angústia é a mesma: “Meu Deus, o que devo fazer com esse dinheiro?”.

E então, ela ouviu uma resposta: “Antes de pensar o que fazer com o dinheiro, experimente criar uma intimidade com ele. Abra o saco, pegue as notas, esfregue-as em suas mãos. Sinta a textura. Coloque-as em cima da cama, faça uma colcha e pule com vontade de costas em cima do dinheiro. Depois, permita-se dar risada. Rir muito mesmo. Jogue o dinheiro pro alto. Festeje a vida. A abundância. Sinta a vibração de celebração do dinheiro. Depois decide o que fazer”.

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