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Sobre animal totem e o espírito dos animais

Quando abri a gaveta do meu porta-joias, com pressa, o par de brincos de coruja praticamente saltou na frente dos meus olhos. Há tempos que não lembrava dele  e achei que tinha tudo a ver usá-lo naquele dia. Eu me arrumava para participar de um curso chamado “Jornada do Animal Totem” e levar um par de aves na orelha me pareceu uma ótima ideia.

Logo no início do curso, percebi que a proposta era muito mais profunda do que eu imaginava. Não era apenas para descobrir sobre o seu animal totem, mas sim sobre a importância de se conectar espiritualmente com todos os animais.

Angelina Ataíde – uma das pessoas mais incríveis que já conheci, aliás, fundadora de Piracanga – começou contando uma história/lenda muito interessante sobre os animais. Falou sobre uma era longínqua em que seres humanos eram pura luz e conviviam com os animais em perfeita harmonia. Algum tempo depois, essa harmonia se perdeu por vários motivos. Mas apesar de toda a crueldade que fazemos com os animais, eles continuam sempre prontos para ajudar na nossa evolução aqui neste planeta.

Segundo tradições ancestrais, todos nós contamos com a proteção espiritual de um animal. É como um anjo da guarda em forma de bicho, com o qual podemos nos comunicar, pedir força, e que tem características semelhantes com as que trazemos na nossa essência. São os animais totens.

Além deles, existem ainda os chamados “animais de poder”, que é quando um animal se aproxima para nos dar uma ajuda temporária e nos emprestam um pouco do seu poder quando precisamos. Não sabia que tinha esse nome, mas eu já tive conexões como essa com a minha gata preta, a Nádia.

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Os gatos – especialmente os pretos – são famosos por seu poder de transmutar energia, de fazer grandes limpezas no ambiente. Certa vez, durante um processo terapêutico, tive sonhos muito perturbadores, cheios de angústia, tensão e medo. Parecia um filme de terror. Acordei com uma forte dor de cabeça e muito enjoada. Fui pra sala, sentei no sofá, e Nadia veio direto para o meu colo, bem em cima do meu estômago. Minutos depois, se levantou e começou a tossir, tossir até que vomitou. E meu enjôo desapareceu. Até achei que podia ser coincidência, mas meses depois, novamente eu tive uma noite que mais pareceu uma guerra, em que eu, em sonhos, batalhava literalmente com alguns demônios internos. Acordei cansada, com o corpo  dolorido. E quando abri a porta do meu quarto, a Nádia tinha vomitado não uma, mas SETE vezes. Bem na porta do meu quarto. Ficou bem claro pra mim que não tinha trabalhado sozinha naquela noite.

Angelina explicou também que, diferentemente dos humanos, os animais tem como uma alma coletiva. Ou seja, existe um grande espírito das formigas, um grande espírito dos lobos, outro para os gatos, e por aí vai. Três espécies, porém, são de grande evolução espiritual e possuem almas individuais, como os humanos: elefantes, baleias e golfinhos. Sim, os golfinhos <3.

Foram muitas discussões e aprendizados incríveis. Mas na parte da tarde, chegou o momento mais esperado do curso: a meditação guiada que nos ajudaria a descobrir qual era o nosso animal totem. Deitada no colchonete, comecei a respirar fundo, fui relaxando e seguia as orientações que nos levou até uma grande árvore, onde embaixo de suas raízes, encontramos um vale incrível, onde viviam todos os tipos de animais.

Já fiz muitas meditações guiadas. E sempre me surpreendo com tudo o que é possível acessar através delas. É realmente um universo paralelo. Fisicamente, eu estada deitada, tranquilinha. Mas na minha visão interna, muitas coisas aconteciam.

Num lugar lindo cheio de árvores, lagos e plantas, eu estava sentada numa pedra. E alguns animais começaram a se aproximar. O primeiro foi um veado, que comia grama bem pertinho do meu pé. Depois um coelho chegou e comecei a ver o que ele fazia bem de perto, como se estivesse vendo através dos seus olhos. Ele andava ligeiro entre as plantas, cheirava tudo o que encontrava na frente, abrindo e fechando as narinas bem rapidinho. Com muita presença Eu sentia tudo! Era ótimo. Depois veio uma cobra eu segui com ela rastejando. O corpo era frio, mais duro. E o movimento que começava perto da cabeça, chegada aos poucos às outras partes de corpo. Era bom se esfregar se chão e sentir a terra na minha barriga.

Depois, foi a vez de nadar com um peixe. Que incrível! Nadava rápido e com uma fluidez deliciosa. Depois fui me afastando, até que voltei a ser eu mesma, sentada na pedra, naquele vale encantado. E muitos animais agora estavam bem próximos. E me olhavam como se dissessem “o que você quer saber? Pode perguntar”.

Olhei para o peixe e a pergunta que saiu de mim foi: você sente dor? Aos poucos, fui entrando novamente no corpo dele. Mas desta vez, foi uma experiência horrível. Vi/vivi um peixe recém-pescado, fora da água, fazendo um esforço hercúleo para respirar. E eu sentia tudo. Pareciam minhas aquelas guelras avermelhadas abrindo até o limite em busca de oxigênio. Não podia respirar. Foi desesperador. Comecei eu mesma a sufocar, deu tontura, angústia, vontade de chorar.  Na minha tela mental, tudo ficou preto. Até que finalmente, consegui me afastar e voltar para minha posição inicial, sentada na tal pedra. Que alívio.

O tempo da meditação já estava acabando, eu já tinha trocado ideia com metade do reino animal,  mas continuava sem saber quem era o meu totem. Finalmente consegui perguntar, mas os animais ficaram me olhando sem dizer nada. Voltando um pouco para a realidade, ouvi a voz da Angelina dizendo “não fiquem preocupados em saber quem é o seu animal. Apenas sintam e aproveitem”. E então eu relaxei. Fiquei só observando aquele lugar incrível que eu visitava  na meditação.

E de repente, a resposta começou a aparecer. Não da forma que eu imaginava. Achei que ele surgiria naquele vale e diria “olá, querida, sou eu seu animal totem”. Mas não. Simplesmente comecei a sentir uma presença diferente no meu corpo, como se um animal estivesse prestes a sair de dentro de mim. Era muito bom e assustador ao mesmo tempo. Senti meus olhos ficarem grandes, enormes. Muito vivos. Envolta deles, um contorno grande, parecia uma mistura de óculos com máscara. E senti que poderia enxergar bem. Muito bem. Mesmo no escuro. Nos meus braços, senti uma de leveza e uma amplitude de asas. Não tive mais dúvidas. Era ela: a coruja.

 

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